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COVID-19 e o impacto na cadeia de suprimentos

Quarentena, 18º dia. Ronaldo percebe que algumas coisas estão acabando dentro de casa, veste uma roupa confortável, coloca sua máscara e luvas para proteger-se do vírus, e vai ao mercado. Chegando lá com sua lista de compras em mãos, vai enchendo seu carrinho tranquilamente. “Ok, acho que só falta o papel higiênico”. Então, ele chega no corredor e descobre que ACABOU! “O que aconteceu?” Ronaldo se pergunta. “Alguém poderá me responder?” Sim, Ronaldo. Nós sabemos a resposta. É o impacto na cadeia de suprimentos causado pelo COVID-19 (coronavírus).

Antes que fique parecendo que vamos falar sobre a corrida aos supermercados em busca de papel higiênico, já vamos deixar claro que não, não é nossa intenção. Deixamos os comentários do artigo para essa discussão. Essa foi uma pequena ilustração (qualquer semelhança com nomes ou fatos da vida real, é mera coincidência) para trazer você para dentro do problema causado pela pandemia no sistema de fornecimento de matéria-prima para as empresas.

A falta de itens no supermercado é a parte visível da situação, e até pode ser resultado de uma compra por pânico. Mas mais do que isto, bloqueios nacionais, mudanças repentinas nas prioridades de compra e os desafios do transporte, são as razões por trás das prateleiras vazias. O invisível é a lacuna existente na cadeia de suprimentos. E este sim é o tema do nosso artigo.

Estamos vivendo o maior impacto na cadeia de suprimentos da história?

Sim. A crise do coronavírus é a maior já enfrentada neste quesito. “Esse é um tipo de disrupção (quebra) sem precedentes. Acho que nunca vimos algo assim” disse Morris Cohen, professor de Operações, Informações e Decisões da Wharton, escola de negócios da Universidade da Pennsylvania.

Cohen, assim como Marshal Fisher, seu colega de profissão, aponta para o terremoto seguido de tsunami que atingiu o Japão em 2011 como a comparação mais próxima ao que está acontecendo hoje. Primeiro, porque os dois acontecimentos trata-se de desastre natural. O outro motivo é que a região atingida pelo tsunami possuía um número muito grande de fábricas que forneciam peças-chave para cadeias de suprimentos em todo o mundo. Muitas empresas tiveram o seu fornecimento interrompido e precisaram ir atrás de alternativas.

Por conseguinte, algumas das biggest companies – como Cisco e Boing – apesar de boa saúde financeira, passaram a investir mais em E.A. como proposta de B.I. na gestão de riscos em sua cadeia de suprimentos. Uma iniciativa sensata, pois as capacitou a contingenciar problemas de ordem semelhante ao acontecimento no Japão. Acontece que ninguém estava preparado para uma situação de pandemia no fornecimento de insumos, na cadeia global. Comprometendo todo e qualquer negócio em várias partes do mundo. Desafiando estrategistas em Supply Chain Management, na análise de impacto e de probabilidades, tanto na ameaça como na oportunidade de gestão de um bom plano logístico sustentável. 

Fisher aborda a interrupção na cadeia de fornecimento causada pelo COVID-19 como sendo “a mãe de todas as interrupções”.

Consequências do impacto

O volume do mercado consumidor, seja ela B2B ou B2C, sofrerá queda no fornecimento. Fazendo que os valores na cadeia de suprimentos aumentem, mesmo com iniciativas de controle de preços de produtos essenciais, com intervenções que subsidiem taxas e impostos para determinados setores. Até que a lei de mercado intervenha pela queda da demanda, fazendo com que os preços normalizem, equilibrando o consumo. Entretanto, a expectativa de recessão pode desequilibrar contundentemente este jogo. E as consequências dos gastos em saúde e infraestrutura para conter o coronavírus ainda não pararam de ser contabilizados. Sem falar na estagnação da economia por conta do isolamento social.

Por isso ainda, o fornecimento de bens de consumo no sufocamento da cadeia de suprimentos é considerado problema de segunda ordem. Em primeira ordem está o fornecimento de suprimentos médicos hospitalares pelo seu caráter emergencial, pois numa situação dessa natureza agravaria ainda mais a crise. Levando essa tragédia a proporções catastróficas. Somente nos EUA há uma estimativa de que seriam necessários 100 milhões de testes segundo Senthil Veeraraghavan, professor de Operações, Informações e Decisões da Wharton. Considerando o esquema de isolamento social, passaria de 5 a 6 milhões. Esse é um dos motivos pelo qual os profissionais da saúde falam em achatar a curva, para que haja mais tempo de produção dos implementos.

Veeraraghavan também acredita que será necessário mais capital no planejamento da produção e entrega de equipamentos para superar a escassez de capacidade. É o exemplo do setor de transporte, que está enfrentando restrições de oferta e demanda. Se as empresas não têm condições de manter o fluxo durante esse tempo de crise, provavelmente os governos terão que dar as caras em algum momento em auxílio. Como já se vê em muitas esferas públicas governamentais.

Essa pandemia também vai fortalecer o discurso dos críticos da globalização. E na verdade as empresas vão precisar repensar em como lidar com isso. Algumas já tem tomado providências de “desglobalização”, optando por fornecedores locais e adjacentes. Sem falar nos conspiracionistas, teólogos e líderes espirituais. A intenção aqui não é entrar no mérito, mas sinalizar que correntes de pensamento podem ser reforçadas em detrimento da falta de resposta da ciência em lidar com o vírus. Podendo influenciar em certa medida itens de consumo e comportamentais, cultivando hábitos de desapego e até mesmo boicotando certos produtos e serviços considerados hostis. Obviamente, ainda é cedo para uma constatação, mas gestão de riscos lida com probabilidades e tudo que pode gerar impacto deve estar no radar. Assim como as articulações políticas que, independentemente de ideologias, seus protagonistas influenciam na manipulação de uma crise. Principalmente os que são signatários de poder. 

E agora, o que fazer?

As contingências na cadeia de suprimentos causada por uma crise não é um problema fácil de se resolver. Mesmo com estratégias de mitigação, ou uma vacina para o COVID-19 hoje, imunizando a população mundial em um curto espaço de tempo, ainda assim demoraria para o mundo se recuperar do efeito dominó que a pandemia desencadeou desde o primeiro indivíduo contaminado. Neste caso, empresas que investiram em gestão de riscos para a cadeia de suprimentos saem na frente, pela vantagem competitiva que essa estratégia representa.

E se esse não é o seu caso, aqui seguem algumas práticas que você pode adotar para contornar o problema.

“Em épocas como essa, criar formas inovadoras de produção da cadeia de suprimentos não é apenas urgente, mas necessário”

Deepak Lalwani

1. Tenha um centro de comando

Se a sua empresa não possui um centro de comando específico para o controle da cadeia de suprimentos, crie um. “A premissa básica é ter uma função de gerenciamento central com acesso a todas as informações e autoridade para direcionar recursos e alocar materiais em resposta a um ambiente dinâmico”, disse Steve Abbott, especialista na Patina Solutions, uma empresa de serviços profissionais. Ou seja, deixe pessoas específicas ocupadas somente com fatores logísticos, com acesso aos indicadores do negócio e com poder de decisão. Dessa forma, você ganha agilidade e rapidez para encontrar as melhores soluções e tira o peso desta demanda dos ombros dos decisores.

2. Gestão de riscos – simule cenários

Quem tem acompanhado nossos artigos sabe o quanto temos batido em cima da estratégia da gestão de riscos. Isso porque é imprescindível para sobrevivência dos negócios e não tem como fugir dela. Por isso, não negligencie. Faça simulações, coloque todas as opções de cenários possíveis em perspectiva e proponha-se a pensar em estratégias para cada um deles. Você pode até gastar um tempo planejando, mas aconteça o que acontecer, responderá com mais resiliência ao desafio. Superando as dificuldades de forma pragmática, você sairá mais fortalecido lá adiante em seu setor e mais bem posicionado no mercado.

Também, temos que a considerar um ‘modus operandi’ para as intervenções na logística causadas por crises. Promovendo uma política de inovação, com análises de indicadores internos e externos, capaz de antecipar, detectar e sinalizar precocemente tendências que podem oferecer riscos na operação. Capacitando a qualidade em sua tomada de decisão diante de qualquer obstáculo.

Nós aqui na Múltipla Estratégia adotamos o codinome “Houston” quando detectamos um problema. Fazendo uma alusão a célebre frase dita por um dos astronautas da famosa missão Apollo 13, quando toda tripulação ficou a deriva no espaço depois de uma explosão no tanque de combustível. Usamos o episódio de forma análoga para um bom exemplo de Turnaround. Mas isso é papo para outro artigo. Por ora, vamos a mais algumas práticas para contornar o impacto na cadeia de suprimentos.

3. Regionalização da cadeia de suprimentos

A intenção com a regionalização é a de aproximar a cadeia de suprimentos de onde um produto é consumido. Reduzindo o lead time o promovendo o just-in-time nos estoque. Além de reforçar o apelo a certos produtos, fomenta um ciclo econômico local. Podemos usar como exemplo a General Motors, que se beneficiou por localizar sua capacidade de produção nos EUA e China, onde existe uma demanda considerável por seus produtos. Ou seja, esse é um movimento que já tem ocorrido por várias razões. O impacto na cadeia de suprimentos causado pelo COVID-19 tende a acelerá-lo.

4. Diversifique seus fornecedores

O momento agora é de abrir o leque. Confiar em uma única linha de suprimento coloca uma empresa em maior risco de interrupção. Por isso, vá em busca de mais fornecedores, principalmente daqueles que estão por perto. E aqui é bom lembrar que talvez você tenha que abrir a carteira também. Pense, o que é pior: gastar um pouco mais ou ficar sem produção por falta de abastecimento? Tom Derry, CEO do Instituto de Gestão de Suprimentos, disse a respeito disso que “as empresas precisam começar a pensar na sua cadeia de suprimentos não mais baseados apenas na economia”. A resposta é clara.

5. Aproveite para conhecer melhor os seus fornecedores

Imagina você descobrir que seus fornecedores usam trabalho escravo. Tenso, não? Pois foi o que aconteceu com a Nestlé há algum tempo atrás quando resolveu analisar toda a cadeia de suprimentos para animais de estimação. A maior parte da proteína vinha de fontes que utilizavam trabalho escravo e ela não sabia. Resultado: a empresa está trabalhando para refazer toda a sua linha de abastecimento para eliminar tais fornecedores. Por isso, não custa nada ir um pouquinho mais a fundo na sua pesquisa. Afinal, ninguém quer ser responsável por “patrocinar” trabalho escravo.

Além disso, você encontra outras informações como avaliações e auditorias de desempenho. Também pode conhecer a visão e missão desses fornecedores e descobrir se estão alinhadas com as de sua empresa (muitos consideram isso para fechar negócio). Neste momento a fidelização com seu fornecedor conta muito.

6. Crie laboratórios de inovação

Tudo tem se desenvolvido cada vez mais rapidamente. Ter um centro dentro da sua empresa que se ocupa com P&D é uma boa tática para estar acompanhando as mudanças e ficar por dentro de como a tecnologia tem ajudado na Supply Chain Management. Assim, a equipe pode trabalhar técnicas de learning para criar novas ideias e oportunidades, identificando tendências e soluções inovadoras para questões estratégicas complexas na área de logística.

7. Investir em estoque

Esta é mais uma prática que pode ser considerada no caso de uma expectativa de interrupção no abastecimento. Como dito mais acima, mesmo sendo importante financeiramente o just-in-time nos estoques, temos que entender a questão da crise e seu impacto na cadeia de suprimentos com pragmatismo. Então, se você não possui um estoque, pode ser o momento de fazê-lo. Isso irá salvaguardar seu negócio de possíveis cancelamentos de pedidos e súbito aumento no custo das mercadorias.

Estamos no mesmo barco

Por ser uma ocorrência global, a crise do COVID-19 certamente incorrerá na escassez de recursos, reduzindo faturamentos, gerando gaps na relação de consumo e gargalos em algumas demandas. O que fará a diferença será um design pró ativo no plano estratégico das lideranças. Quem souber se utilizar da proatividade nas iniciativas tático/operacionais, será mais eficaz em suas ações na gestão de riscos. Certamente seus esforços serão recompensados com indicadores fora da curva, já que a crise generalizada de recessão, retrocesso, e queda dos ativos assolam toda economia mundial.

Muita atenção para a palavrinha “design”. Formas sem equilíbrio, com dificuldades de deslocamento, proporções e volume incompatíveis, sem direção e controle, com temperaturas e pressão descalibradas. Dificilmente darão sustentabilidade para qualquer empreendimento. E o Design Estratégico, como proposta de valor, busca exatamente a melhor forma para dar a sustentabilidade àquele que quer empreender com sucesso. Essa tecnologia é tão extraordinária, que é a base de tudo que existe e prospera.

E então, como anda seu design? Se quiser conhecer mais sobre o assunto, temos um artigo que explica esta metodologia. E se ainda restarem dúvidas, deixe um comentário ou entre em contato. Será um prazer conversar com você.

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